Ora nada melhor do que o rescaldo de umas eleições em tempo de crise para voltar a dar vida ao Blog...
E neste momento, que a escolha dos portugueses está feita, mal ou bem, chamou-me a atenção, à parte das dificuldades económicas tanto apregoadas, bem como das medidas estruturais que se diz serem necessárias, que os políticos não consigam ler correctamente outros sinais igualmente relevantes das escolhas ou “não escolhas” dos portugueses, nomeadamente no que diz respeito ao “fenómeno” da abstenção.
De facto e no que diz respeito ao tema, viu-se tanto no próprio dia das eleições, após a divulgação dos resultados, como no dia posterior, muitos políticos “conceituados” da nossa praça, a apressarem-se a desculpar a abstenção sobre a falsa questão do “défice democrático e cívico” da sociedade portuguesa, como se a culpa estivesse só de um lado, e como se toda a classe politica fosse uma vitima do “alheamento” dos portugueses no que toca a colocar o voto na urna...
Esquecem-se esses mesmos senhores... (ou fazem-se de despercebidos digo eu...) que o aparente “divorcio” entre a classe politica e o eleitorado se deve igualmente à fraca imagem que a mesma deixa transparecer de si própria, face aos contínuos “casos” de tráfego de influências, favorecimento de terceiros, desfalques e derrapagens que afectam o erário público, onde vinga a corrupção, o amiguismo, a cunha, os “job for the boys”, a mentira, a hipocrisia, a prepotência e arrogância, e um sem número de atitudes que tomam o lugar da ética e do dever que deveriam imperar na acção politica...
É que não chega só acenar com o “chavão” do dever cívico dos portugueses, quando se esquece igualmente do dever cívico e politico de “servir” o país... e não de se servir do mesmo ou ser servido...
Não é por acaso que pese embora o distanciamento temporal, na democracia grega, por exemplo, as pessoas se reviam mais facilmente nos seus representantes do que nos tempos modernos, quiçá porque imperava igualmente nos políticos de então um sentimento de “dever”.. que se foi perdendo ao longo do tempo.
Hoje a classe politica e os partidos em geral, e os políticos em particular (acredito que possam existir excepções), preocupam-se mais nos seus interesses partidários, do que nos problemas reais do pais ( e para isso basta... no mínimo.. seguir as campanhas eleitorais...).
Ora o que vejo não só aqui em Portugal, como no resto do mundo, é que a forma de “fazer” política por parte da população em geral, mudou.. e os políticos ou não perceberam.. ou pior, não querem perceber esse facto, e não tiram as devidas ilações e não estão em consequencia, a conseguir adaptar-se como seria necessário...
É que a “acção” politica não se esgota no “voto”, e mesmo aquelas pessoas que não votam, acabam muitas vezes por ter uma intervenção politica tão ou mais poderosa do que o simples facto de ir votar...
Não que não considere que as pessoas para além de se manifestarem de outra qualquer forma, não devam igualmente votar..., devem de facto a meu ver..., mas ressalvando sempre o direito de o fazer, e nunca como uma obrigação, com é prática no Brasil, no qual o voto é mesmo obrigatório...
Esse não é de facto o caminho a seguir, pois “subverte” a ideia de escolha que deve ser livre... e o não votar também pode ser uma escolha.. que não pode ser excluída..
Mas apesar de considerar que as pessoas devem votar, não confundo o “dever” votar, com a “obrigação”, pois votar deve ser um direito, e só o é enquanto for uma escolha caso contrário não é um direito, é uma obrigação...
Dizia eu que a forma de fazer politica mudou... em Portugal e no resto do mundo... globalmente..., mas a classe politica aparentemente não, cristalizou.. e não acompanhou a mudança no paradigma politico...
Quando nos deparamos com uma realidade na qual, as pessoas se organizam e se manifestam globalmente como nunca... sobre as mais variadas formas, na qual a Internet têm tido um papel primordial, quer convocando “mega” manifestações..., quer na criação de Blogs e grupos de discussão, verificamos que a intervenção cívica e politica da população mudou.. já não se resume ao simples voto, mas alargou-se, deslocou-se para outros patamares mais amplos, e não menos poderosos... alargando-se assim a “ESCOLHA”.
E nesse sentido também, é errada a leitura de que as pessoas estão alheadas da politica... quando o que elas estão é alheadas é da “classe politica” e dos partidos em geral..., ou seja, estão fartas desta forma antiquada de fazer politica...
A abstenção reflecte assim apenas a percentagem de pessoas que se “cansaram” deste modelo politico, e já não se revêm no mesmo.
Mas não se pense que elas estão adormecidas. não... antes pelo contrário, estão bem vivas... em pleno movimento... só que o mesmo já não se reflecte nas urnas sobre a forma de voto, ou seja, de uma forma directa..., mas sim indirecta.. e já lá vamos mais à frente..., para já prefiro chamar-lhe uma presença “ausente”...
Relembro aqui para uma melhor compreensão do que refiro, as eleições presidenciais americanas... nas primárias os vota-se muitas vezes por forma a promover não um candidato forte do seu partido, mas sim no candidato oposto mais fraco, para que possa perder no confronto directo com o do seu partido na fase seguinte, ou seja, aparentemente estão alheadas dos seus interesses... mas na prática chegam ou pretendem chegar lá por outros caminhos...
As pessoas já perceberam que o seu poder enquanto cidadãos não se resume a ir colocar o voto nas urnas e que existem igualmente outras formas bastante eficazes de “penalizar” as más governações... ou seja, outros canais que podem a curto/médio prazo ter um efeito bem mais eficaz...
Como ? Organizando-se em manifestações, com grande impacto mediático, com auxilio dos meios de comunicação (rádio, televisão, mas sobretudo internet, especialmente nas camadas mais jovens que a ela aderem mais facilmente....), ou através de Blogs ou grupos de discussão, nos quais debatem diversos pontos de vistas e estratégias que por um lado desgastam e consequentemente penalizam as más governações, e ajudam a criar um movimento de sensação de mudança... ou Lobbys, como lhes quiserem chamar... e que muitas vezes influenciam de forma definitiva a tendência de voto das pessoas que acabam por ir votar às urnas... e dai ter intitulado à pouco de “presença” (real, pois interage e influência concretamente), ausente (no que diz respeito ao acto de votar, mas não de influenciar muitas vezes os vencedores...)
O poder dos “Opinion makers” mudou de mãos... já não está nas mãos de alguns “iluminados/ esclarecidos”.. mas saltou para a esfera pública e global... ou seja, tornou-se incontrolável pelos tradicionais “centros de Poder”...
E estas aparentemente “inofensivas” acções... têm im impacto enorme, pelo que ignorar as mesmas por parte dos “responsáveis politicos” representa uma grave míopia que pode ter a médio longo prazo consequências politicas...
E de nada vale vir o presidente apelar ao sentido cívico da população na altura do voto, quando não se chegou sequer a perceber a “complexidade” do problema..., pois resultará como se verifica na prática um desastre e um insucesso garantgido...
Não chega igualmente voltar a tapar o sol com a peneira com argumentos de que o mal está apenas nas pessoas e na sua falta de responsabilidade, pois existem várias alternativas, ( 17 partidos concorrentes nestas últimas eleições por ecemplo...), e que estas são comodistas e não querem é ter o traballho de irem votar e preferem por exemplo ir para a praia...
Ora a ser verdade, essas mesmas pessoas também não se dariam ao trabalho de ir às manifestações ou de discutir os problemas através da internet... não..., não se trata aqui de comodismo... mas sim de alterações preofundas na forma de participação cívica...
É certo que votar nos partidos com “menor” peso politico (pessoalmente não concordo com esta expressão, pois o poder dos partidos não é ditado à priorí, é aquele que as pessoas decidirem atribuir aos mesmos.. e não fabricadas artificialmente por “interesses alheios”) será uma parte da solução, para que se possa ultrapassar esta falsa “dicotomia” e possa fazer emergia novas e reais alternativas ( que não seja apenas falsa alternância...), mas é apenas uma das possibilidades.. tão válida como outra qualquer...
As pessoas só têm é que se deixar amedrontar pelo seu lado “emocional” impedindo que o mesmo “domine o lado “racional” que prova claramente que outras alternativas são possíveis se assim se quiser...
É de saudar por exemplo a votação do recém-criado PAN - Partido pelos Animais e pela Natureza, que conseguiu na sua primeira candidatura, um numero acima dos 50 000 votos, sendo o segundo partido mais votado entre os apelidados “partidos pouco representativos”...
Isto prova que outras abordagens são possíveis e que os politicos não estão a saber avaliar e adaptar-se correctamente ao novo paradigma politico emergente.