Wednesday, April 19, 2006

Alguém conhece?

Na sequência do último post, uma outra notícia do mesmo jornal chamou-me a atenção...

Segundo reza a crónica de Joaquim Fidalgo, Hugh Thompson, herói com “letras miudinhas” da guerra do Vietname faleceu recentemente. Este nome até à data nada me dizia, como se calhar também nada dirá a quem neste momento me estiver a ler.

Passo então a transcrever um excerto que me parece relevante para que se perceba quem foi tal “personagem”, que isto dos heróis e da História com H grande está muito dependente de quem a conta e da forma como a conta. No entanto, as coisas acontecem...

“Hugh Thompson é um nome que, até há pouco tempo, não me dizia nada...,...My Lai é o nome de uma aldeia, mas para mim é o nome de um massacre: o massacre de My Lai, ocorrido durante a guerra do Vietname e gerador de violentíssimos protestos em todo o mundo. Foi por essas e por outras que os americanos perderam aquela guerra – uma guerra que nunca deviam ter feito, aliás. Quando se soube da carnificina de May Lai, ocorrida em 1968, confirmou-se aquilo que se suspeitava (apesar dos costumeiros desmentidos oficiais), que era o facto de muitas populações civis indefesas, mulheres, crianças, velhos, serem também vítimas – e vítimas deliberadas – da guerra. Eram tudo menos “danos colaterais”, como hoje em dia é costume chamar-se a coisas semelhantes, com um ar constrangido que soa a hipocrisia.

Diz a História que em My Lai terão morrido, por força das armas de marines americanos, cerca de 500 vietnamitas civis. Mas há outra história dentro da história de My Lai. É que houve três soldados também americanos, que tentaram impedir o massacre. Entre eles o tal Hugh Thompson. Esses três soldados, ao chegarem à aldeia e ao verem o espectáculo dantesco da sua tropa a chacinar toda uma população, não hesitaram em interpor um helicóptero entre os seus camaradas de armas e os indefesos vietnamitas, apontando mesmo as espingardas contra os próprios colegas e ameaçando disparar, se a mortandade continuasse. Hugh thompson, mais os companheiros Lawrence Colburn e Glenn Andreotta (deixem que lhes escreva os nomes, merecem tê-los gravados e conhecidos) não conseguiram impedir o assassinato de cerca de 500 pessoas da aldeia, mas graças à sua intervenção desesperada, puderam ainda salvar ao menos uma vintena. Para além disso, a importância do gesto é enorme: onde todos estavam a dizer sim, eles foram capazes de arriscar um não, tendo-se mesmo voltado contra os seus companheiros, em defesa de pessoas que não conheciam de lado nenhum, mas que eram pessoas – e pessoas desarmadas.

Hugh Thompson morreu há dias, e foi por causa disso que a sua história foi recordada nos jornais. Foi por aí que soube. E gostei de saber que, embora a história futura só registe a carnificina terrível de My Lai, há pelo menos três heróis desconhecidos que impediram um bocadinho dela..., ... Para que conste, aqui fica a parte da história em letras pequeninas.” Joaquim Fidalgo Público 19 Abril 2006.

Pois é, o autor não conhecia... eu também não... mas gostei de ficar a conhecer...!!!

8 comments:

Anonymous said...

Eu também gostei de saber. Já agora de que terá morrido o senhor? De desastre de aéreo?

UntilTheEnd said...

Morreu de cancro.. dá que pensar... aonde andas tu.. ó "justiça divna"...

Anonymous said...

A justiça divina não é para aqui chamada os assassinos podem ter tido oportunidade de se confessarem antes de morrerem e irem para o céu e os vietnamitas porque não tiveram tempo de confessar qualquer pecadilho estão muito justamente no inferno.

UntilTheEnd said...

as "" servem aqui para dar um tom irónico e para fazer pensar quem ainda acredita "nessas coisas", i.e., ou elas realmente não existêm, ou se existem então talvez não sejam tão justas como as pintam..., mas bom trocadilho acerca dos "timmings" confessionais...

Anonymous said...

He he, o homem morreu daquilo que morre uma percentagem substancial da população dos países ditos desenvolvidos.
Pior ainda, sendo americano. Com os disparates alimentares e não só; melhor ainda; com o disparate pegado que é o modo de vida do americano médio. Era um candidato ainda melhor ao cancro que nós, coma nossa "sociedadezinha de consuminho".

De resto a "justiça divina" não é para aqui chamada, nem a religião tão pouco.
Mas eu também já conheço esse outro "ódiozinho de estimação".

A propósito!
Disse eu que a religião não era para aqui chamada no entanto...

Porque será que esses homens tiveram tal atitude no meio de uma guerra em que, talvez, até houvesse justificação para a tal postura terrorista tomada por soldados americanos numa aldeia vietnamita.

Sim, que soldados ou não, americanso ou não, são acima de tudo homens. Homens que depois de diáriamente verem camaradas seus cairem numa guerra de guerrilha, em que muitas vezes o inimigo não se distinguia dos civis. Em que um sem número de vezes eram atacados pelas costas por inimigos escondidos pelas populações civis ditas inocentes. Ou que eram estas próprias os atacavam, deixando-os entrar pacificamente para o meio das aldeias, para lá os chacinarem.

Não consigo deixar de me lembrar de uma frase que ouvi ao meu pai no contexto de uma de inúmeras conversas sobre a sua experiência de 3 comissões militares na Guiné.
"...vemos tanta coisa que ás duas por três somos, quase, mais terroristas que eles..."

Deixando de divagar e voltando à questão inicial.

Quem será que lhes incutiu tão forte respeito pela vida humana, que os levou a virarem-se contra os seus camaradas de armas, para defender uma população que, eventualmente, os atacaria à traição no dia seguinte, apenas porque naquele momento estava indefesa?

Não sei qual é a resposta.
Mas estou plenamente convencido de que a religião é uma forte candidata a ter sido o principal motor de tal respeito pela vida humana.

UntilTheEnd said...

Mr "God"... espero que o "Senhor" não leve a mal estar a usar o seu nome em vão... (se a "causticidade" for um pecado mortal, estou feito...) Também não tenho odiozinho nenhum à religião, e a justiça divina aqui veio à laia de fazer pensar na sua existência e/ou nos seus moldes...
Quanto ao facto de estarem num ambiente hostil, onde o perigo poderia surgir de onde menos se poderia esperar, mesmo da população cívil... é um factor que atingia TODOS de igual maneira... e mesmo assim... uns atacaram, outros defenderam... situações iguais, reacções diferentes...
O porquê dessas "diferenças"... sinceramente não sei... provavelmente só eles o saberão...
Poderá de facto ter sido a Religião... ou não... é que o respeito pela vida humana deve ser antecessor a qualquer religião, na medida em que deve servir como um dos seus pilares de sustentação... de resto não preciso de ser religioso para respeitar a vida humana..., se bem que esta possa ajudar "alguns" a obter tal visão...

Anonymous said...

Não disse que o respeito pela vida humana é um exclusivo das religiões.
Apenas tenho constactado ao longo da minha própria vida e da dos que me são próximos, que o exaltar da vida em si e o professar o seu respito é uma cosntante das religiões, através dos seus ensinamentos e celebrações. Fora do contexto religioso, não tenho verificado a existência de tais ensinamentos ou práticas (escola, política, associções diversas, práticas inhdustriais ou comerciais,...), salvo talvez a honrosa excepção do movimento hippie. Mas mesmo esses basearam a sua abordagem ao tema nas mais diversas formas de religião que se podem encontrar por esse mundo fora.

Quanto a uns e os outros, no tal constexto militar hostil, é precisamente aí que queria chegar, alguma coisa fez a diferença, muito provávelmente algo que lhes terá sido incutido no mais fundo da sua consciência desde os mais tenros anos da sua existência.

PS: Já agora dispensa-se o trocadilho entre um diminutivo que usei apenas para me dar a conhecer mais fácilemnte e a sua interpretação à luz da língua inglesa. É que independentemente das minhas convicções ou da falta delas, tenho o máximo respeito por todas as religiões e pelos seus símbolos.

UntilTheEnd said...

De facto não quis com o trocadilho ofender ninguém... se de facto ofendi alguma das partes... aqui ficam as minhas sinceras desculpas; embora nem sempre possa parecer... (os trocadilhos foram apenas no sentido de aliviar um pouco o ambiente "algo" pesado da conversa) tb respeito as religiões... sabendo manter igualmente as minhas convicções... o divino aqui, como aliás já referenciei, veio à laia de um questionar a existência ou não de uma justiça divina... e quanto a isso... cada um que tire as suas conclusões de acordo com as suas convicções... e raciocinio... de resto tal como tu dizes e muito bem, "a religião é uma forte candidata", o que indica por sí só que não é a única, mas uma das..., nem eu intrepertei como sendo a única..., apenas referi o facto de que o respeito da vida humana é ou deve ser algo anterior Às próprias religiões... e como tal não dependente destas. Estas por sua vez e que devem fazer desse respeito um dos seus pilares de sustentação. Um abraço...